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Frente parlamentar debate patrimônio imaterial em Mesa Redonda

Comissão presidida pela vereadora Fabi Virgílio (PT) realizou evento, em parceria com a Escola do Legislativo, na noite desta sexta-feira (3)


“Patrimônio Imaterial – Cultura. O que o caso Borba Gato nos diz?” Esse questionamento foi o tema da Mesa Redonda realizada pela Comissão Especial de Estudos (CEE) denominada Frente Parlamentar em Defesa da Cultura e da Educação, presidida pela vereadora Fabi Virgílio (PT), em parceria com a Escola do Legislativo da Câmara Municipal de Araraquara, na noite desta sexta-feira (3), com o objetivo de criar mecanismos para a preservação do patrimônio material e imaterial da cidade de Araraquara. A CEE é composta também pelos vereadores Filipa Brunelli (PT) e Guilherme Bianco (PCdoB).

Fabi abriu a conversa lembrando que “a queima da estátua de Borba Gato levantou uma discussão sobre a nossa história, que tanto há o quer ser falado, refletido e estudado”. “Essa discussão proposta é sobre os monumentos, homenagens a torturadores, bandeirantes e escravistas, que ainda persistem em estar nos cenários e na rotina da cidade. O que esse caso nos invoca a refletir?”, perguntou.

A docente e pesquisadora de História Econômica, Social e Demográfica da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp (FCLAr), Dora Isabel Paiva da Costa, iniciou com duas indagações. “Por que alguém colocaria fogo, destruiria uma estátua? Seria uma atitude política. A pessoa vê a estátua como um símbolo de opressão. Mas a outra questão é: ao destruir a estátua, vai estar exterminada a opressão?”, questionou.

Com base no estudo “A Memória, a História e o Esquecimento”, de Paul Ricoeur, Dora destacou que memória e esquecimento são dois lados de uma mesma moeda; estão entrelaçados. Falou também sobre os conceitos de memória impedida e memória manipulada, além das modalidades do esquecimento.

“Muitos esquecimentos acontecem motivados por impedimentos internos ao indivíduo para acessar a memória. Existem impedimentos internos (psicológicos) e externos (sociais e políticos). É na tentativa de recordar que se encontram os obstáculos à memória.”

Ela lembrou que Ricoeur vai indagar se existe uma ponte entre o inconsciente de Bergson e o de Freud. “O inconsciente formado por recalque (Freud) em relação ao inconsciente da lembrança pura/total (Bergson) constitui abismo intransponível? Não, pois para Ricoeur a solução é a 4ª Lição. A indestrutibilidade do passado é refeita pela 4ª Lição, isto é, pela ressignificação.”

A pesquisadora explica que Ricoeur justifica o uso de Freud, pois defende a indestrutibilidade do passado, desenvolve a possibilidade do discernimento do inconsciente, através do estudo do recalque, tornando-o inteligível, e pela possibilidade de transposição da esfera da vida privada para a pública.

No entendimento de Dora, para se acessar a memória é preciso criar uma narrativa. “Sua função é a mediação entre o pensamento e a narrativa. A memória é composta pelo testemunho (indivíduo, monumento ou símbolo), memória declarada (narrativa) e a narratividade (configuração da linguagem escrita ou fílmica que se dá por representações do passado histórico).”

A representação do passado histórico se dá através do trabalho de escrita da narrativa, do trabalho de ideologização da memória e da aplicação de recursos variados presentes na escrita ou em filme. “É possível sempre narrar de outro modo, suprimir ou deslocar ênfases, e refigurar os protagonistas da ação, assim como os contornos dela.”

“É necessário que os indivíduos e o coletivo façam um trabalho conjunto de reorganizar a memória. Para reorganizar a memória é preciso organizar também o esquecimento. Se esse trabalho não for feito, o trauma fica no subconsciente e vai retornar”, enfatizou.

No mesmo sentido, o coordenador de Acervos e Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultura, Weber Fonseca, enfatizou que o incêndio na estátua de Borba Gato não foi um fato isolado e nem será o último. Citou os ataques em 2 de outubro de 2013, 29 de janeiro de 2015 e 30 de junho de 2016 ao Monumento às Bandeiras, em frente ao Parque do Ibirapuera, em São Paulo. “Em 1985, Borba Gato foi utilizado como um outdoor da campanha ‘Diretas Já’”, lembrou também. “Ele é bem relevante na região Sul da cidade de São Paulo.”

Para Fonseca, tudo muda a partir do episódio do George Floyd que foi assassinado nos Estados Unidos, em 2020, em meio ao contexto pandêmico, com museus fechados. “Depois disso, acontece uma explosão desse movimento. Vivemos isso e assistimos isso acontecer, e vai nos trazer uma referência muito forte, que é o caso que aconteceu em Bristol na derrubada da estátua de Edward Colston, um escravocrata. Ela é pintada de vermelho e jogada no Rio Avon. Depois ela é retirada da forma que estava e exposta em museu para que o fato ganhe dimensão não só da própria história da Inglaterra, como com o próprio fato do Floyd. Foi aberta uma pesquisa, um inventário participativo, questionando se estátua deveria ser exposta no museu de Bristol.”

“O que está em jogo?”, questionou o coordenador. “Por que a população derrubou? Qual o movimento? E agora, quais propostas foram feitas? É uma pergunta que não é feita”, provocou. “Temos que pensar aqui também. O que é patrimônio aqui em Araraquara? Quais são as referências culturais e identitárias? Como vamos ressignificar isso? Temos que ouvir a população no seu cotidiano. Como trazemos outra narrativa? Não é apagando. Temos que fortalecer as contra-narrativas. O que temos a dizer? O que todos esses movimentos têm a dizer? Para mim, é isso que Borba Gato nos diz.”

A Mesa Redonda foi transmitida ao vivo pela TV Câmara (canal 17 da NET, Facebook e YouTube), com emissão de certificado pela EL.

Confira a íntegra da Mesa Redonda aqui.




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