Notícias



Moradores questionam cumprimento de sentença em Audiência Pública sobre Residencial Oitis

No evento, moradores relataram experiências no local e pediram informações sobre o andamento da ação movida contra Prefeitura, Caixa Econômica e Construtora Itajaí

2684


“Respostas” foi o grito com o qual os presentes encerraram a Audiência Pública “Situação do Conjunto Residencial Oitis, no Jardim Iguatemi”, ocorrida na noite de quinta-feira (24), no Plenário da Câmara. O evento, convocado pelo vereador Guilherme Bianco (PCdoB) por meio do Requerimento nº 1081/2025, recebeu moradores e ex-moradores do condomínio para apresentar demandas e questionamentos sobre o processo envolvendo o local, a Prefeitura, a Construtora Itajaí e a Caixa Econômica Federal.

 

O Conjunto Residencial Oitis foi entregue à população em outubro de 2011. Construído com recursos do “Minha Casa, Minha Vida”, o residencial contemplou 256 famílias da primeira faixa de renda do programa. Os proprietários fizeram o pagamento dos imóveis por meio de um financiamento de 10 anos.

 

Em 2018, os moradores ingressaram com uma Ação Civil Pública, dizendo que, meses após a entrega, os edifícios apresentavam problemas estruturais e não contavam com auto de vistoria do Corpo de Bombeiros. A sentença, emitida em fevereiro deste ano, determinou a disponibilização de outros imóveis aos moradores regulares, a realização de reparos decorrentes de vícios de construção, a recuperação da infraestrutura e a execução de um Projeto de Trabalho Social (PTS) no local. As responsabilidades foram divididas entre a Caixa, a Prefeitura e a construtora.

 

Em audiência, os moradores relataram que nenhuma das determinações foi cumprida. “Lá é um lugar inabitável. Se ocorrer um incêndio, não tem extintor. Para quem tem algum tipo de deficiência, não tem corrimão. Os blocos estão, todos eles, com infiltração e rachaduras que são de risco. E quem vai dar as respostas que a gente procura? Quem vai dar a solução para as pessoas?”, disse a moradora Kele Cristina, ressaltando que os residentes não têm sido atualizados sobre a tramitação do processo.

 

Ela contou que, quando passa por abordagens policiais ou busca oportunidades de trabalho, sente o preconceito em relação ao lugar onde vive. De acordo com a moradora, nessas ocasiões e nas redes sociais, o residencial é chamado de “Carandiru”, em referência à antiga Casa de Detenção de São Paulo. Outros moradores concordaram com o relato, afirmando que já foram dispensados em seleções para vagas de emprego quando mencionaram o condomínio como local de residência. “Eu moro nos Oitis. Eu criei as minhas filhas nos Oitis e eu sou digna de respeito como muitos que moram lá. E o que a gente quer é o mínimo, que é justiça”, disse Kele, respondendo ao apelido do local.

 

A falta de segurança foi um dos principais problemas relatados. Vanessa, uma das moradoras que expôs as experiências durante o evento, contou que decidiu sair após perder o marido e uma filha no residencial. Hoje, morando em um espaço cedido em favor da família, ela resiste em voltar ao Oitis. “Será que se eu voltar lá eu vou perder mais um filho para as drogas ou por um tiro perdido? Porque já morreu muita gente lá”, questionou.

 

“Quem tem teve condições de sair de lá saiu. Estou pagando aluguel com muita dificuldade, porque não tinha mais condições de estar ali, criar os filhos ali”, comentou a moradora Renata Marques dos Santos. Um dos motivos da mudança, segundo ela, é o uso e o tráfico de entorpecentes, que ocorre nas dependências do conjunto residencial.

 

Manoel, ex-morador que participou da audiência, contou ter sido a segunda pessoa a mudar para o Residencial Oitis, quando o condomínio foi entregue. “Aquilo era bonito. Eu vi nascer, vi crescer, estou vendo definhar e vou ver morrer, como muita gente está morrendo ali, esperando realizar o sonho de sair”, comentou. “Não são só rachaduras, não é só a infraestrutura, não é só esgoto entupido. É vazamento nas paredes, infiltração, teto caindo, pessoas roubando”, listou, complementando que animais peçonhentos estão entre os problemas vivenciados por quem mora no Oitis.

 

Dentre os pedidos apresentados pelos moradores, estão as respostas sobre o cumprimento das determinações da justiça e, principalmente, sobre a disponibilização de novas habitações. “A dignidade de moradia é de todas as pessoas. Todos nós temos direito de ter onde morar, de ter um lugar habitável”, disse Kele Cristina. “Eu só quero paz e um lugar digno para acabar de criar minhas filhas, para poder terminar minha vida, porque eu paguei e eu tenho direito de moradia. Eu só quero solução”, pediu a moradora. A demanda foi repetida ao longo dos depoimentos apresentados na audiência.

 

“Resposta, justiça e dignidade” foi a forma como o vereador Guilherme Bianco descreveu a luta dos moradores do condomínio. “A gente quer ter resposta, a gente quer que a justiça seja feita. Vocês ganharam, vocês têm o direito. A gente quer dignidade para poder viver em paz”, completou.

 

Convidados

Além de Kele e Renata, compuseram a mesa Guilherme Bianco, a moradora Ana Paula Aparecida Marques, o morador Pedro Gomes Duarte e o integrante do Coletivo Bases José Lopes Nei.

 

Para Aluisio Boi (MDB), que acompanhou o evento, os vereadores podem ser o elo entre a população e o Poder Público. O vereador sugeriu realizar reuniões com os envolvidos no processo para obter informações sobre o cumprimento da sentença. Boi propôs, ainda, que os moradores utilizem espaços públicos, como a Tribuna Popular das Sessões Ordinárias, para expor relatos sobre a situação do Conjunto Residencial Oitis.

 

Também foram convidados para participar da Audiência Pública os defensores públicos Matheus Bortoletto Raddi e Luís Marcelo Mendonça Bernardes; os secretários ou representantes das secretarias municipais de Habitação e dos Assuntos de Segurança e Mobilidade Urbana; um representante da Coordenadoria Executiva de Segurança Pública; representantes de engenharia e comunicação da Construtora Itajaí; e um representante da Caixa Econômica Federal. Os convidados não compareceram e não se manifestaram sobre o assunto – com exceção de Matheus Bortoletto, que justificou sua ausência.

 

Para rever

A Audiência Pública foi transmitida ao vivo pela TV Câmara, no canal 17 da Claro, e pode ser conferida na íntegra no canal do YouTube e na página do Facebook da Câmara.


Publicado em: 25 de julho de 2025

Cadastre-se e receba notícias em seu email

Categoria: Câmara

Comentários

Adicione seu comentário

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.


Outras Notícias

Fique por dentro

‘Eu não opinaria por uma privatização ou concessão’, diz superintendente do Daae na Câmara

08 de maio de 2026

Após ser convocado pelos vereadores, o superintendente do Departamento Autônomo de Água e Esgotos de Araraquara (Daae), Wilian Thomaz Marega, prestou esclarecimentos em Sessão Extraordinária realiz...



Qualidade no atendimento e falta de farmácia na USF do Jardim Brasil são temas de Requerimento

08 de maio de 2026

O funcionamento da Unidade de Saúde da Família (USF) do Jardim Brasil é o foco do Requerimento nº 1047/2026, enviado pelo vereador Coronel Prado (Novo) à Prefeitura.   Segundo o parlamentar, muní...



Reforma do CER ‘Antônio Tavares Pereira Lima’ não tem previsão de início

08 de maio de 2026

Existem dois projetos para a reforma do Centro de Educação e Recreação (CER) “Antônio Tavares Pereira Lima”, no Jardim Pinheiros, mas a obra ainda não tem previsão de início. A execução depende da...



Agenda Esportiva – 08/05

08 de maio de 2026

Categorias de base Pela 2ª rodada do Paulista Sub-15, a Ferroviária enfrenta o Rio Claro neste sábado (9), às 9 horas, no Estádio Dr. Augusto Schimidt Filho. O confronto se repete no mesmo estádio...



Oficina de Graffiti

08 de maio de 2026

Estão abertas, até 1º de junho, as inscrições para a “Oficina de Graffiti para Mulheres”, oferecida pelo coletivo Beverly Crew. O curso é gratuito e conta com 30 vagas. O início das atividades está...



‘Visão para Inclusão’

08 de maio de 2026

Os participantes do projeto “Visão para Inclusão”, realizado em Araraquara por meio de parceria entre a Rede Brasileira de Desenvolvimento Social (RBDS) e a Secretaria Municipal de Desenvolvimento...





Esse site armazena dados (como cookies), o que permite que determinadas funcionalidades (como análises e personalização) funcionem apropriadamente. Clique aqui e saiba mais!