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A ludopatia, também conhecida como vício ou transtorno do jogo, tem os mesmos efeitos no cérebro que a dependência em álcool ou outras substâncias, explicou Edilson Braga, que é psicólogo e pesquisador do ambulatório de Transtorno do Jogo do Instituto de Psiquiatra do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP).
O assunto foi debatido na Audiência Pública “Conscientização sobre a ludopatia: vício em jogos e apostas”, convocada pelos vereadores Alcindo Sabino, Maria Paula, Filipa Brunelli (todos do PT) e Enfermeiro Delmiran (PL) e realizada na noite de quarta-feira (12), no Plenário da Câmara Municipal.
A ludopatia é uma condição reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), listada na Classificação Internacional de Doenças (CID) e descrita pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) como um padrão persistente de comportamento que leva a sofrimento ou prejuízo significativo.
Apesar de ser comportamental, o transtorno do jogo funciona a partir de mecanismos neurológicos similares aos de dependências que envolvem a ingestão de substâncias. “Se colocássemos aqui as ressonâncias magnéticas, sem identificar, de um jogador e de alguém que estava fazendo uso de álcool ou cocaína, não seria possível saber quem é quem”, afirmou Braga.
No entanto, a doença apresenta particularidades. Diferentemente de outros vícios, a ludopatia está ligada ao ato de apostar, independentemente do resultado. Assim, o jogador busca uma possibilidade de gratificação, que é alcançada antes mesmo do resultado da aposta, por meio da liberação de dopamina, neurotransmissor presente no mecanismo de recompensa.
A possibilidade de desenvolver o transtorno aumenta com a exposição frequente, pontuou Braga. O risco tem sido agravado pelo crescimento da oferta de jogos de apostas, que podem ser acessados pelo celular em qualquer horário e sem necessidade de grandes deslocamentos e que são divulgadas de forma atrativa em peças publicitárias e por influenciadores. O pesquisador ressaltou também que, mesmo que propagandas veiculem a ideia de jogar com responsabilidade, isso não é possível, já que jogadores, especialmente adolescentes e jovens, estão suscetíveis a desenvolver o transtorno desde quando começam a apostar.
Além do impacto financeiro, outras comorbidades, como ansiedade, depressão e vício em álcool ou outras substâncias, costumam ser desenvolvidas em associação à ludopatia, explicou Braga. E esse adoecimento também causa efeitos psicológicos e financeiros sobre as pessoas que estão ao redor do jogador, como familiares e amigos.
Diferentemente de outras dependências, o transtorno do jogo é mais difícil de ser percebido. De acordo com o pesquisador, leva, em média, oito anos para que pessoas com a doença procurem ajuda. No entanto, na rede pública de saúde, especialmente na atenção básica, faltam profissionais especializados no tratamento da condição.
Questionado sobre meios para prevenção da ludopatia, Edilson Braga destacou a importância da criação de políticas públicas específicas, como campanhas educativas feitas pelo ministério e por secretarias de saúde, a conscientização sobre os riscos das apostas e a abordagem do tema em escolas, além do treinamento para profissionais da saúde básica e dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e maiores investimentos na área.
A ludopatia em Araraquara
Em Araraquara, pacientes com ludopatia são recebidos pelo Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas (CAPS-AD).
Segundo o psicólogo Anderson Kazoyoshi Kawasaki, casos da doença estão começando a chegar à unidade de saúde, mas a tendência é que haja um aumento ao longo do tempo.
“Nós sentimos falta de um conhecimento mais focado para atender essa demanda”, destacou Kawasaki, pontuando que o manejo de pacientes com o transtorno do jogo deve ser feito de forma diferente de outras dependências e que, mesmo que haja protocolos para atendimento, também é necessário treinamento para que a equipe possa lidar com a condição.
O Caps-AD está localizado no Jardim Santa Angelina, mas, em breve, deve mudar para o Jardim Adalberto Roxo, onde uma nova sede está sendo construída. Para serem atendidos, os pacientes podem ser encaminhados ou procurar diretamente a unidade. Após uma conversa, um acolhimento é agendado para que, posteriormente, as terapias possam ser iniciadas.
A Audiência foi mediada pelo vereador Alcindo Sabino. Também participaram do evento as vereadoras Maria Paula e Filipa Brunelli.
A partir das discussões, deve ser enviada ao Município e ao Ministério da Saúde a sugestão de realização de campanhas educativas sobre a ludopatia e os riscos dos jogos de apostas. Além disso, os vereadores devem encaminhar ao Congresso Nacional um Requerimento solicitando a continuidade do processo de regulamentação dos sites e empresas de apostas, também conhecidos como “bets”.
Para ver e rever
O evento foi transmitido ao vivo pela TV Câmara, no canal 17 da Claro, e segue disponível na página do Facebook e no canal do YouTube da Câmara.
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